Por Marco Antonio Jordão
Foto: Adam West promo Batman 1966
Qual foi o "melhor Bruce Wayne / Batman" até hoje?
É um assunto perene de disputa, sem dúvida, entre os fãs mais fervorosos, mas merece uma análise mais aprofundada por parte do resto de nós, pois as adaptações cinematográficas do Cavaleiro das Trevas oferecem versões com pinceladas muito mais variadas em tamanho, nuances e texturas.
Tim Burton, tentando trazer alguma seriedade psicológica ao papel (com Michael Keaton vestindo a máscara), optou por um recluso introvertido com um quê de Norman Bates demais para o conforto do público. A versão de Joel Schumacher, interpretada por Val Kilmer e depois por George Clooney, retornou um pouco ao galã charmoso dos quadrinhos originais, porém com resultados exageradamente caricatos.
O Batman de Zack Snyder (Ben Affleck), que aparecia esporadicamente como o Cavaleiro das Trevas, era mais velho, grisalho, desiludido, com um capricho inadequado de complexo de messias, enquanto a franquia que começou em 2022 abandona completamente a imagem de playboy (pelo menos por enquanto) e nos apresenta um Wayne em processo de amadurecimento e socialmente retraído vivido por Robert Pattinson.
Mas a representação mais impactante do único super-herói famoso sem um superpoder de fato, e que apareceu pela primeira vez nos quadrinhos, cortesia da imaginação do artista da DC Comics Bob Kane e do escritor Bill Finger, em 1939 é, na minha modesta opinião, de longe, a executada por Christian Bale na trilogia de Christopher Nolan, lançada entre 2005 e 2012.
Outras adaptações cinematográficas transformam histórias em quadrinhos em filmes. A mistura magistral de realismo e fantasia de Nolan transforma uma miscelânea de interpretações em uma epopeia coerente, na qual o público finalmente vê muito do que até então apenas nos era contado. Tudo começa com a história de origem, Batman Begins, na qual vemos Wayne em uma montanha tibetana tentando conciliar as reflexões enigmáticas de Ra's al Ghul em meio aos combates com seu trauma pessoal, entre sequências de pancadaria brutal que misturam ninjutsu, aikido e iaido.
Então, conforme o resto da história se desenrola, sentimos, indiretamente, a cruel dicotomia no cerne da trama. Quase todas as adaptações retratam a vida fútil de um bilionário playboy como fachada para uma busca quase suicida por justiça, reforma e vindicação moral: aqui, a ignomínia de destruir a preciosa reputação e o legado de sua família em busca de uma versão gigantesca desse mesmo legado é exposta.
Luto e culpa dando lugar à garra e coragem? Direto do programa de incentivo à adaptação de Batman. Aqui, a odisseia emocional percorre pastos de esperança, desespero, ressentimento, depressão, solidão e, finalmente, na agora icônica cena da escalada, um desfecho trazido à vida pela trilha sonora stravinskiana de Hans Zimmer: renascimento, reempoderamento e redenção.
O fato de os roteiristas encontrarem espaço para o humor em meio a tudo isso, sem que pareça forçado, é nada menos que milagroso, como a interpretação magistral, icônica e anárquica do vilão interpretada por Heath Ledger em Batman: O Cavaleiro das Treva. E também o mergulho no lado mais sombrio da trilogia com O Bane de Nolan, interpretado por Tom Hardy em O Cavaleiro das Trevas Ressurge.
Ajuda o fato de a trilogia de Nolan ter sido feita no século XXI. O universo dos quadrinhos é um caldeirão fervilhante de traumas religiosos, raiva reprimida, impulsos animalescos, transtorno dissociativo de identidade e outras loucuras psicológicas. Por isso, essas histórias são ainda mais relevantes agora, numa época em que levamos essas questões mais a sério. Tão a sério, aliás, que, enquanto pesquisava para este artigo, encontrei tratados acadêmicos sobre o Batman, incluindo um artigo da Universidade do Arizona no qual um psicólogo clínico o chama de “exemplo perfeito de crescimento pós-traumático” por canalizar sua “culpa de sobrevivente” em comportamentos socialmente construtivos. Psicobaboseira? Talvez, mas se alguma adaptação merece um escrutínio acadêmico tão rigoroso, é a de Nolan.
Sua reinvenção do mito com o espírito da época é simplesmente magistral. Some a isso a destreza e o charme com que Bale incorpora a personalidade boêmia de Wayne.
Como evoluímos!, lembrando-me de assistir às reprises da série de TV do Batman do final dos anos 60 nas manhãs de sábado com um amigo de infância... também conhecida como Batman e Robin, foi exibida originalmente entre 1966 e 1968 (ano em que eu nasci), tendo ao todo 60 "histórias", sendo cada uma dividida em 2 partes, o que totalizou 120 episódios, narrando a luta contra o crime do herói, sempre acompanhado pelo parceiro Robin.
De forte apelo humorístico e estilo camp, é considerado uma "sátira consentida", pelos aspectos deletérios ao "mito" do personagem. O primeiro deles, estava no protagonista: Batman / Bruce Wayne vivido pelo ator Adam West, visivelmente fora de forma para o papel, em uma fantasia que deixava evidente tal falta de forma. As más línguas no mundo inteiro onde a série foi exibida também teorizavam a existência de um envolvimento homossexual entre os dois personagens, Batman e Robin.
O icônico Batmóvel preto com detalhes em vermelho é até hoje considerado uma obra prima sobre rodas, baseado no protótipo Lincoln Futura de 1955, transformado pelo customizador George Barris e o elenco estelar que compunha a série era sublime.
Agora, finalizando sobre os figurinos de Bruce Wayne sem a “armadura” do Cavaleiro das Trevas, com especial destaque vale a pena mencionar que Giorgio Armani criou os ternos sob medida para Christian Bale na trilogia do Batman de Christopher Nolan, além de peças para outros personagens como Comissário Gordon (Gary Oldman) e Selina Kyle (Anne Hathaway), refletindo a sofisticação e o estilo do playboy milionário e contrastando com o Batman, trabalhando em parceria com a figurinista Lindy Hemming.
Também é importante notar o trabalho minucioso de figurino de Jan Kemp, Lee Harmer e Pat Barto para a composição refinada dos ternos e complementos feitos sob medida para os atores Adam West e Burt Ward na série televisiva Batman do final dos anos 60.
Para os sapatos, marcas renomadas como Coach, Ferragamo, Gucci e Berluti desfilaram pelos sets de filmagem, complementando o ar alinhado e sofisticado dos figurinos em cada época.



