
Por Marco Antonio Jordão
Foto: AI Generated
Chloe Malle, jornalista que já atuava há duas décadas na Vogue, filha do cineasta francês Louis Malle e da atriz Candice Bergen assumiu em setembro passado o comando editorial da Vogue norte-americana.
O anúncio havia sido feito, à época, pela poderosa Anna Wintour. O lendário colunista André Leon Talley, morto em 2022, foi quem melhor a resumiu: “se a moda é uma igreja, a Vogue é a Bíblia, e Anna Wintour, o papa”.
Anna, britânica com 76 anos, filha de Charles Wintour, editor linha-dura do jornal Evening Standard de Londres por quase 20 anos, dirigiu a Vogue norte-americana por 37 anos. E desde que Chloe assumiu o seu cargo, passou a exercer a função de diretora global de conteúdo da Condé Nast, supervisionando as revistas mundiais de moda do grupo, exceto a The New Yorker: Vogue, GQ, Glamour e projetos estratégicos como o Met Gala, que arrecada fundos para o departamento de moda do Metropolitan de New York.
É a saída de cargo mais movimentada da história da moda. Anna foi fotografada com seus tradicionais óculos escuros ao lado de Kendall Jenner e Gigi Hadid e caminhou pelo tapete de desfile de estreia de Demna na Gucci. No Oscar deste ano, apresentou ao lado das atrizes Anne Hathaway e Meryl Streep, os prêmios de melhor figurino e melhor cabelo e maquiagem, encarnando a frieza e o desdém de Miranda Priestly, personagem de Meryl inspirada na própria Anna em O Diabo veste Prada.
Em sua entrevista a David Remnick no podcast The New Yorker Radio Tour, a jornalista falou da reorganização da Vogue e, com humor, reconheceu que O Diabo veste Prada era uma caricatura, mas não totalmente inventada.
Também voltando a Vogue, a última capa teve uma repercussão muito grande com Anna e Meryl na capa, na esteira de divulgação do novo O Diabo veste Prada 2.
Desde o início, a reputação de insensível e brilhante a acompanha. Enquanto colegas murmuravam sobre o seu pragmatismo, o público das revistas por onde passava só crescia. Anna sempre sonhou com a publicação, e foi trilhando o seu caminho ao topo. Nos dois anos em que dirigiu a Vogue Britânica, ela recebeu o apelido de “Nuclear Wintour” pela escalada de demissões e reformas que imprimiu à revista. Ao assumir a edição norte-americana em 1988, uma única capa mudou tudo: modelo de corpo inteiro com um top de Lacroix em um jeans de US 40. Luxo versus comum. Escândalo e revolução!
Por que uma revista fascina tanto e por tanto tempo? A Vogue nasceu como coluna social em 1892, quando Arthur Baldwin Turnure fundou em New York um jornal semanal voltado para a elite. Cobria bailes, eventos de gala, teatro e divulgava fofocas para e sobre os ricos. Turnure morreu em 1906, e logo após o empresário Condé Montrose Nast comprou a publicação e transformou-a: a Vogue passaria a falar com mulheres que gostam de moda, beleza e estilo de vida. Contratou os melhores fotógrafos e ilustradores e iniciou a expansão internacional.
Em 1932 a revista publicou uma das primeiras capas com foto colorida da história. Quando morreu, em 1942, Nast havia transformado o jornal de sociedade em uma revista mundial. Desde o início, muito do prestigio vem da curadoria, do que a revista escolhe ou não mostrar. Até hoje, uma capa ou citação nas páginas da Vogue legitima estilistas, modelos e marcas.
A cena do suéter de tricô azul em O Diabo veste Prada demonstra o pragmatismo, o conhecimento e a maestria que muitas vezes deixa a desejar em milhares de “influencers” e “pseudo-conhecedores” de moda hoje em dia, e que cravam a perspicácia de Miranda, ou Anna, que interrompe o riso e começa uma humilhação em forma de aula: “o sueter azul não surgiu por acaso, primeiro apareceu nas passarelas de Oscar de la Renta e Yves Saint Laurent. Depois foi reinterpretado, chegou às lojas de departamento e acabou em uma arara de liquidação. Esse azul representa milhões de dólares e incontáveis empregos. E é cômico você achar que fez uma escolha que te coloca fora da indústria da moda quando, na verdade, o suéter que você está usando foi escolhido para você pelas pessoas desta sala”.
Dos estilistas às massas, como o “gosto” é fabricado… brilhante.


