
Por Marco Antonio Jordão
Foto Tales Iwata
A Rolex inaugurou uma faculdade no Texas, Estados Unidos em 2023. A escola oferece uma imersão de 18 meses no universo Rolex, seu design, componentes e, principalmente, como consertá-los. 22 alunos fizeram parte da primeira turma, cujo curso começou em setembro de 2024; uma segunda turma de 27 alunos iniciou em setembro de 2025. E há mais por vir agora em 2026.
Em 2024, a empresa recebeu mais de 560 inscrições para as 27 vagas que foram disponibilizadas para o curso de 2025, o que colocou a sua taxa de aceitação em pé de igualdade com a universidade de Harvard.
Alguns alunos estão abandonando carreiras de décadas. Outros abandonaram a faculdade. Alguns acabaram de sair do ensino médio. Outros ainda são trabalhadores de escritório desiludidos. Praticamente todos os alunos são atraídos por um trabalho prático e técnico com o peso emocional dos relógios de uma marca de luxo.
Um exame final na sede da Rolex em Genebra, sob o olhar atento de rigorosos fiscais suíços, aguarda todos os alunos. Se aprovados, eles podem se intitular Relojoeiros Certificados pela Rolex, com potencial para ganhar uma média de US$ 96.000 por ano.
Os Estados Unidos têm em torno de 2.000 relojoeiros profissionais, capazes de consertar um relógio, menos ainda um de luxo. A nova escola da Rolex em Dallas pretende mudar essa realidade, e a procura por vagas diz muito sobre o estado da profissão em 2026.
Abra um Rolex e você verá um conjunto de engrenagens, bobinas e molas, sob a qual há um pedaço minúsculo de metal em forma de Y. Esta é a âncora. Oito vezes por segundo, a âncora trava e libera os dentes de um disco chamado roda de escape. Juntos, esses dois componentes formam o escape do relógio.
À medida que o escape oscila repetidamente, ele envia energia para o balanço, o componente oscilante de cronometragem que regula a precisão de cada relógio Rolex.
Se a âncora, com espessura de micrômetros, não conseguir travar a roda de escape, você pode muito bem tirar esse Rolex do pulso e usá-lo como um peso de papel de, em média, US$ 20.000.
O conserto de um relógio, caso a âncora esteja com as suas bordas corroídas devido a anos de desgaste e manutenção irregular, custa mais de US$ 800 e leva pelo menos um mês, isso se a relojoaria acertar o reparo na primeira tentativa. E essa necessidade de mão de obra para esse e outros tipos de manutenção serem assertivas, em especial levou a Rolex a investir em uma faculdade para formação e treinamento adequado de profissionais.
Na última década, uma mudança radical criou uma demanda crescente por conserto de relógios e, consequentemente, por profissionais competentes nessa área. Uma valorização histórica do mercado de ações, e uma nova classe de capitalistas de criptomoedas criou uma nova ordem de pessoas muito ricas, e quando a pandemia interrompeu brevemente muitas das formas como essas pessoas gastam dinheiro, muitas delas se interessaram por relógios.
Estima-se que a Rolex agora venda mais de um milhão de relógios por ano pela primeira vez em sua história, enquanto realiza o feito notável, no ramo de luxo, de fazer com que o seu produto pareça raro. Enquanto isso, o mercado de relógios usados está florescendo graças à melhoria das plataformas de comércio eletrônico e a uma crescente cultura de entusiastas.
Preparando profissionais para atuarem no mercado da alta relojoaria, a Rolex cria uma elite que passa a fazer parte da ordem de trabalhadores qualificados que lutam contra o descartável da cultura de consumo moderna. Tentar consertar qualquer coisa hoje em dia pode gerar sentimentos de perda e frustração, ou, pior, resignação.
É melhor comprar sapatos novos, uma torradeira nova ou um carro novo. Às vezes, parece que estamos todos em um carrossel absurdo, agarrando-nos desesperadamente aos nossos bens mais valiosos enquanto eles quebram e se tornam impossíveis de consertar ou substituir com a mesma qualidade.
Mas um Rolex não é algo que você simplesmente substitui. É uma herança ou um patrimônio, simbolizando uma conquista ou, literalmente, a passagem do tempo. Um relógio pode até ser, à sua maneira, um meio de organizar o caos da vida. Quando outras coisas estão tão ruins que não podem ser consertadas, o dono de um Rolex pode se lembrar de algo que é ao mesmo tempo fixo e consertável, contanto que ainda existam relojoeiros.
Traçando um paralelo com o que temos em Franca hoje, há a necessidade de nos organizarmos cada vez mais para formarmos profissionais que dêm continuidade à cultura da produção de sapatos de forma artesanal como os que a Adolfo Turrion entrega ao mercado atualmente.
A Rolex faz parte da minha história há décadas, e fez também parte da história do meu pai. Não se trata de um luxo por si só, mas a reverência a uma máquina de alta qualidade que está presente no meu cotidiano, altamente resistente, que não quebra, não pára (desde que se mantenha o sistema de manutenção adequado) e que, sobretudo, descarte o processo de consumo em massa que nos empurra à “necessidade” de trocar e trocar sempre. As coisas precisam ser mais duradouras, há de se ter respeito pelo bolso do consumidor e oferecer produtos perenes, como procuramos fazer em nossa fábrica também.
Hans Eberhard Wilhelm Wilsdorf, fundador, não poderia ter previsto o sucesso da Rolex quando fundou a empresa em 1905.
Hans Wilsdorf publicou sua autobiografia em 1946 como parte de um conjunto de livros de quatro volumes chamado Rolex Jubilee Vade Mecum. Em sua autobiografia, Hans afirmou: “Os meus tios não foram indiferentes ao meu destino; no entanto, a forma como me fizeram autossuficiente desde muito cedo me fez adquirir o hábito de cuidar dos meus bens e, olhando para trás, acredito que seja para isso que muito do meu sucesso é devido”.
Wilsdorf se destacou em matemática e línguas, o que o inspirou a viajar e trabalhar em países estrangeiros. Começou sua carreira como aprendiz em uma empresa internacional de exportação de pérolas altamente influente. A valiosa experiência que Hans adquiriu desempenhou um papel crucial em todos os seus negócios futuros.
A obsessão da empresa pela precisão, que permitiu à então novata competir com a Tissot, a Longines e a Omega, e que agora exige um fornecimento constante de relojoeiros para atender os proprietários de Rolex, está presente desde o início. De fato, os primeiros relógios da empresa receberam certificados que atestavam a qualidade cronométrica dos relógios Rolex de instituições como o Centro Oficial de Classificação de Relógios em Bienne, na Suíça, e o Laboratório Nacional de Física na Inglaterra.
Estima-se que a marca agora receba regularmente quase metade de todos os certificados emitidos anualmente pelo Instituto Oficial Suíço de Testes de Cronômetros, fundado em 1973 para estabelecer diretrizes sobre o que torna um relógio de pulso excepcional. O padrão atual do instituto para certificação é um relógio que desvie no máximo de menos quatro a mais seis segundos por dia. A Rolex exige que seus relógios desviem no máximo de menos dois a mais dois segundos por dia.
Nos anos que se seguiram à Primeira Guerra Mundial, a Rolex trilhou um caminho que a tornaria a rainha dos relógios de pulso, registrando uma série de patentes. Em 1926, a Rolex patenteou o primeiro relógio de pulso à prova d'água. Em 1931, criou o movimento automático moderno, que dá corda ao relógio enquanto ele está no pulso do usuário.
A Rolex também aprimorou as coroas rosqueadas (o botão na lateral do relógio), os fundos de caixa rosqueados (a parte inferior do relógio) e os aros rosqueados (o anel externo que circunda o cristal do mostrador). Ao todo, a Rolex registrou 82 patentes entre 1920 e 1945, sendo sete delas apenas para o movimento automático.
Com o tempo, esses desenvolvimentos formaram a base dos três relógios pelos quais a Rolex é conhecida hoje, como o Explorer, o GMT-Master e o Submariner.
Eram pequenas máquinas, relógios-ferramenta para serem “abusadas”, impermeáveis aos elementos e feitos para pessoas que realizavam atividades perigosas, o que a Rolex demonstrava em seu marketing. Em sua famosa travessia a nado do Canal da Mancha em 1927, Mercedes Gleitze usava um Rolex preso a uma fita amarrada no pescoço. Quando o Everest foi escalado pela primeira vez, em 1953, os membros da expedição estavam equipados com relógios Rolex, o modelo Explorer surgiria logo após, como símbolo deste feito. Eles voaram nos primeiros voos transcontinentais comerciais da década de 1950 e mergulharam na Fossa das Marianas em 1960. Antes de James Bond usar um Omega, ele ostentava um Rolex Submariner, talvez uma heresia que vale mais um blog mais para frente.
Com a ajuda da agência de publicidade J. Walter Thompson, a Rolex entrou no mercado americano, expandindo seu escopo de realizações para incluir reuniões de gabinete e simples jantares de negócios. “Onde quer que decisões históricas sejam tomadas”, vangloriava-se um anúncio de 1956, os relógios nos pulsos “muito provavelmente terão sido fabricados pela Rolex de Genebra”. Homens (e mulheres) não são especiais por usarem um Rolex, dizia-se. Em vez disso, usam um Rolex porque já são importantes. “Rolex não é um relógio. Rolex é uma narrativa sobre excepcionalismo”, afirma Pierre-Yves Donzé, autor de A Criação de um Símbolo de Status: Uma História Empresarial da Rolex. “É preciso merecer o direito de ter um Rolex fazendo algo.”
A tradição da Rolex explica, em parte, por que seus executivos em Genebra são notoriamente reservados com a mídia. Por que a Rolex decidiu abrir uma escola em 2023? Qual o efeito da escassez de relojoeiros no entusiasmo por relógios de luxo? Os executivos da Rolex, em geral, não são citados pela imprensa. Segundo Donzé, a teoria da Rolex sobre publicidade é simples: Não há nada a dizer. Basta olhar para o relógio.
Nos últimos 25 anos, a Rolex fabrica todos os seus próprios componentes.
Para Rachel Wolf, diretora da escola em Dallas (recrutada do Dallas College, uma faculdade comunitária onde ela era vice-presidente e supervisionava os programas técnicos), o objetivo principal da escola da Rolex é oferecer às pessoas uma trajetória profissional em um setor em declínio, mas que ainda tem sua importância. Procuramos pessoas interessadas em aprender e que não sejam movidas por marcas. Não queremos uma escola de relojoaria que seja boa porque as pessoas amam a Rolex. Queremos pessoas que passem a amar a Rolex por causa da experiência que têm com os relógios.
Educação, a base de tudo.



