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Rádio Adolfo Turrion

A origem da Camurça

Por Marco Antonio Jordão

Foto Tales Iwata

Etimologicamente, o termo “camurça” vem do francês “gants de Suède”, que se traduz literalmente como “luvas da Suécia”. Durante o período romântico na França, as importações de couro sueco tornaram-se muito populares entre a nobreza. Em vez de usar a pele externa áspera dos animais, os artesãos suecos, no século XIX, desenvolveram uma maneira de usar a face interna da pele animal para criar luvas incrivelmente macias e flexíveis para as mulheres.

Embora a produção de camurça tenha permanecido limitada a luvas por várias décadas, artesãos na Suécia e em toda a Europa eventualmente reconheceram que o potencial da camurça ia muito além da simples produção de luvas. Com o tempo o uso da camurça expandiu-se, e no século XX, popularizou-se como símbolo de luxo europeu com estilistas como Givenchy e a aclamada Maison Hermès e suas bolsas a partir da década de 50, que a utilizaram por sua durabilidade e sofisticação, atingindo o auge da moda nos anos 60/70 com jaquetas de franjas, saias evasê e botas altas, onde também ressaltamos o ícone esportivo Puma Suede, um dos tênis mais icônicos da marca Puma, lançado originalmente em 1968.

Ele fez história como o primeiro calçado esportivo a utilizar camurça (suede) na parte superior, um material que na época era considerado de luxo. A partir dos anos 80, o mesmo tênis ganhou força no streetwear, sendo adotado pela cultura hip-hop.

A camurça tem um acabamento aveludado, às vezes chamado de "felpudo". Enquanto a maioria dos tipos de couro são lisos, a camurça tem uma textura mais parecida com algodão ou outro tipo de tecido de origem vegetal do que com pele animal. Visualmente, a camurça é fosca, enquanto o couro comum é brilhante, e enquanto o couro comum muitas vezes é impermeável, a camurça é altamente permeável e tende a manchar, necessitando de cuidados especiais e manutenção constante.

O uso da camurça vem retornando mais intensamente nos dias de hoje com foco em sustentabilidade e maciez, e continua a ser considerada um material de luxo. A parte interna da pele animal é muito mais macia ao toque e mais confortável em contato com a pele do que a externa, embora não tenha a mesma durabilidade do couro comum, sendo menos resistente às intempéries.

Embora a maioria dos tipos de couro seja produzida a partir de pele bovina, a camurça é geralmente feita de pele de cordeiro, dentre outros tipos de pele animal, como a de bezerro, cabra e veado.

Na tentativa de reduzir o impacto sobre os animais utilizados na produção de couro e de neutralizar alguns dos atributos negativos da camurça, os fabricantes têxteis têm tentado criar diversas alternativas sintéticas à camurça, com diferentes graus de sucesso, mantendo o toque macio e a elegância atemporal. 

Embora seja impossível replicar completamente os atributos desejáveis ​​da camurça, as alternativas sintéticas podem ser menos dispendiosas ou mais duráveis ​​do que o material genuíno, e podem ser chamadas de camurça em determinadas circunstâncias:

1. Camurça: embora existam muitas alternativas de camurça no mercado, apenas o couro de pelo de origem animal pode ser considerado camurça genuína. Não se pode molhar camurça porque a água causa manchas, endurece as fibras, altera a textura macia e felpuda, pode deformar o material e causar desbotamento, pois a camurça absorve a umidade facilmente e não é resistente à água como o couro comum. A água penetra nas fibras abertas, deixando marcas permanentes e alterando sua estrutura, o que exige limpeza a seco ou com métodos especiais para evitar danos irreversíveis, como ressecamento e rigidez;

2. Ultrasuede; foi uma das primeiras alternativas à camurça sintética a chegar ao mercado. Desenvolvido em 1970 pelo cientista japonês Miyoshi Okamoto, a maioria das versões de Ultrasuede é composta por 80% de microfibra de poliéster e 20% de poliuretano. Ao contrário da camurça sintética de origem animal, o Ultrasuede pode ser lavado na máquina de lavar e seco na secadora;

3. Alcantara:  é outro nome comercial para o Ultrasuede. Foi desenvolvido em uma parceria entre a empresa japonesa Toray Industries e a italiana Alcantara. Este tecido é praticamente idêntico ao Ultrasuede e, assim como este tecido sintético similar, o Alcantara pode ser lavado na máquina. Enquanto o Ultrasuede é mais comumente usado em aplicações industriais e para o consumidor em geral, o Alcantara é mais comum em interiores de veículos de luxo e forros de bolsas de grife;

4. Seda camurçada: é possível submeter a seda a um processo químico que a torna semelhante em textura à camurça. A seda camurçada possui todos os atributos benéficos da seda e, ao contrário da camurça comum, pode ser lavada na máquina;

5. Algodão camurçado: assim como a seda com acabamento camurçado, o algodão com acabamento camurçado passa por um processo químico que torna sua superfície externa áspera, assemelhando-se à camurça. Esse tipo de tecido também pode ser lavado na máquina.

Não existem certificações específicas para a camurça. No entanto, há diversas certificações disponíveis para o couro em geral. Por exemplo, a organização global de certificação OEKO-TEX oferece a certificação Leather Standard para produtos de couro, como também o Instituto de Certificação de Qualidade para o Setor de Couro – ICEC, ambos focados nos métodos de produção dentro das exigências normativas para qualquer finalidade de uso, além de garantir o respeito aos principais requisitos químicos relativos à saúde e segurança dos consumidores.

O Leather Working Group - LWG é uma organização que fornece serviços de certificação em todas as etapas da cadeia de suprimentos de tecidos de couro, e que audita o nosso centenário curtume Della Torre.

A Adolfo Turrion, vem apoiando ações mais recentes como a Estrutura Global de Rastreabilidade para Carne Bovina e Couro, que é uma iniciativa colaborativa liderada pela pela Better Food Future em conjunto com o World Wildlife Fund - WWF, que visa criar um sistema de dados padronizado para rastrear carne bovina e couro desde a fazenda até o produto final.

Lançada em março de 2025 em parceria com o Instituto de Tecnólogos de Alimentos - IFT, Wholechain, Rever e FAI Farms, a estrutura aborda sistemas fragmentados e silos de dados que atualmente limitam a transparência e a verificação da sustentabilidade.

Com programas piloto em andamento no Brasil e na Austrália, a iniciativa evoluiu das ideias iniciais para testes em situações reais. Ao longo do último ano, os parceiros testaram sistemas em cadeias de suprimentos reais, aprimoraram ferramentas técnicas e construíram engajamento com a indústria para apoiar uma adoção mais ampla.

Atualmente a Adolfo Turrion usa somente couros bovinos certificados oriundos de vacas adultas com 5 metros, que resultam, por exemplo, no tipo de camurça utilizada em nossos sapatos, com o objetivo rastrear toda a cadeia de produção e de reduzir o impacto sobre os tipos de animais utilizados na produção de couro.